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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dívida Pública: o que é?

Nos últimos meses a temática da dívida pública ganhou uma importância, visibilidade e dimensão que há muitos anos não tinha. Mas, sublinhe-se, essa maior relevância também resulta do facto de a questão da dívida pública se estar a “generalizar”, no sentido de que o cidadão comum se vai apercebendo de que, afinal, este problema também lhe diz respeito e que lhe caberá certamente parte do ónus resultante da sua eventual resolução. E esta percepção dos indivíduos não resulta apenas da ênfase que o debate político e a comunicação social têm colocado no assunto, mas também (e, se calhar, sobretudo) do facto de a questão da dívida pública se estar a projectar de forma directa e objectiva sobre a vida das pessoas e das organizações, de formas diversas: por via das medidas de austeridade adoptadas pelo Governo português, pela crescente dificuldade em aceder ao crédito, pela tendência para crescimento das taxas de juro, pelos efeitos que as políticas implementadas têm no nível da actividade económica e no emprego, etc.

No entanto, na cabeça de muitas pessoas continuam a colocar-se muitas dúvidas, nomeadamente em relação a alguns aspectos básicos desta temática. No espírito de “clareza no pensamento” que norteia este projecto, vamos procurar ajudar ao esclarecimento de algumas dessas dúvidas. Dado que o espaço é curto vamos referir-nos apenas, por agora, à questão básica do conceito de dívida pública, procurando voltar ao assunto em futuros apontamentos.

O que é, afinal, a dívida pública?
As necessidades anuais de financiamento do Estado decorrem sobretudo (embora não exclusivamente) da existência de défices orçamentais. É que, como com qualquer outra entidade, quando as despesas são superiores às receitas, esse excesso de despesa tem que ser, de uma forma ou outra, financiado. No que respeita ao Estado, esse financiamento pode fazer-se de formas diversas, destacando-se, no entanto, três soluções:
- emissão de dívida pública
- alienação de património do Estado (como a venda de imóveis e a privatização de empresas públicas);
- emissão de moeda pelo Banco Central.

Considerando que a 2ª solução (alienação de património) deve ser entendida como conjuntural e de recurso (e é, obviamente, limitada) e que a 3ª solução (emissão monetária) é pouco recomendável (tendo em conta, entre outros, os potenciais efeitos em termos de inflação) e que a mesma não está, aliás, disponível (em termos individuais) para os países que, como Portugal, integram a União Económica e Monetária (é o Eurosistema, liderado pelo Banco Central Europeu, que controla essa emissão), a emissão de dívida pública assume-se então como a principal forma de financiamento dos défices orçamentais por parte do Estado.

Essa emissão de dívida pública faz-se essencialmente através da emissão de títulos de dívida (como Obrigações do Tesouro, Bilhetes do Tesouro, Certificados de Aforro, entre outros), os quais são lançados nos mercados de capitais com vista à obtenção dos meios de financiamento necessários. A dívida pública corresponde então, essencialmente, às responsabilidades assumidas pelas Administrações Públicas em relação a esses títulos de dívida emitidos.

Porque varia a dívida pública ao longo dos anos?
Embora a variação da dívida pública, ao longo dos anos, dependa de vários factores (entre eles, as eventuais amortizações de dívida que se façam), o principal factor de variação da dívida pública é o saldo orçamental de cada ano. Repare-se, por exemplo, que em Portugal a dívida pública acumulada passou de 66,3% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2008, para 76,8% do PIB em 2009, o que é largamente explicado pelo enorme défice orçamental que Portugal registou em 2009 (9,4% do PIB).

Há, obviamente, muitos outros aspectos básicos relativos a esta temática. Procuraremos retomá-los em futuros apontamentos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Paridades de Poder de Compra

Por vezes procura-se comparar o nível de vida entre países confrontando os respectivos PIB per capita (Produto Interno Bruto por habitante), que corresponde, basicamente, ao rácio do PIB total do país (valor da produção gerada no território económico do país) pela população residente no mesmo. A comparação nesses termos padece, no entanto, de várias limitações.

Uma das limitações maiores decorre do facto de os níveis de preços poderem ser diferentes entre os países (o que influencia, naturalmente, o poder de compra dos indivíduos).
Daí que uma medida mais ajustada para comparações seja o PIB per capita mas expresso em Paridades de Poder de Compra (PPC). Este indicador expressa o valor do PIB per capita mas “corrigido” pelo nível de preços relativo do país (eliminando-se assim os efeitos das diferenças nos níveis dos preços entre países). As PPC funcionam pois como uma “moeda comum” artificial que permite medir o poder de compra associado ao PIB per capita em moeda. Basicamente, calcula-se pela relação entre o PIB per capita (em moeda) do país e o nível de preços relativo do mesmo.
A comparação pelas PPC conduz muitas vezes a resultados consideravelmente diferentes dos que se obtêm pela comparação dos PIB per capita em moeda.

Com base em trabalhos desenvolvidos pelo Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou em Dezembro de 2009 os valores do PIB per capita expresso em PPC para 37 países europeus, referentes a 2008.
Os valores de referência para a comparação são os valores médios para a União Europeia (UE, 27 países). A moeda de referência é, naturalmente, o euro (fazendo-se a correspondente conversão para os países com moeda diferente).

Vejamos a situação portuguesa. Em 2008, o PIB per capita português, em moeda, era de 15668,37 euros. O índice de preços relativo, por sua vez, era de cerca de 82,3 (o que compara com o valor de referência 100 para a média da UE, e que significa que aquilo que custava na UE, em média, 100 euros, custava em Portugal, em média, 82,3 euros). Da relação daqueles montantes resulta um valor de 19047,76 para o PIB per capita expresso em PPC.
A comparação entre países deste indicador mostra que, em 2008, o valor para Portugal representava apenas 76% da média da UE (valor de referência de 100). Trata-se de um resultado pouco interessante, pois para além de mostrar um afastamento considerável da média europeia, evidencia também a incapacidade manifestada para melhorar esta posição relativa ao longo dos últimos anos. Portugal regista o valor mais baixo entre os 15 países “antigos” da UE (não considerando os 12 países que aderiram à UE a partir de 2004), ficando ainda atrás de alguns membros mais recentes (como Chipre, Eslovénia, República Checa e Malta)*. São, aliás, resultados que, na linha de outros, confirmam o fraco desempenho da economia portuguesa nos últimos anos, particularmente na última década.

(*- Note-se que alguns dos países referidos, nomeadamente Malta e a República Checa, embora tendo um PIB per capita em moeda inferior ao português, apresentam níveis mais elevados para o indicador em PPC, devido aos valores consideravelmente mais baixos dos respectivos níveis de preços relativos.)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Inflação em 2009: os números finais

O Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou recentemente os valores da inflação relativos a Dezembro de 2009. Conhecendo-se assim o quadro final de evolução dos preços durante 2009, parece oportuno olhar para o mesmo e clarificar alguns valores.

Recorde-se que a inflação se mede pelo Índice de Preços no Consumidor (IPC), que é um indicador que mede a evolução, em termos relativos, do custo de um conjunto de bens e serviços (cabaz) considerado representativo da estrutura de consumo das famílias. Em Portugal o cabaz engloba mais de 1100 bens e serviços, repartidos por 12 classes.
O INE publica mensalmente três indicadores (taxas) de variação do IPC: a variação mensal (que compara o IPC de dois meses consecutivos), a variação homóloga (que compara o IPC de um mês com o IPC registado no mesmo mês do ano anterior) e a variação média dos últimos doze meses (que, medida para um determinado mês, compara a média do IPC mensal dos últimos doze meses com a média do IPC mensal dos doze meses imediatamente anteriores). Esta última taxa calculada para o mês de Dezembro de cada ano corresponde à chamada taxa de inflação anual, sendo por isso o indicador mais abrangente e o mais referenciado. Importa, pois, analisá-lo mais demoradamente.
O valor desta taxa para Dezembro de 2009 foi de -0,8%, resultante da comparação da média dos IPC dos 12 meses de 2009 (valor de 99,2) com a média dos IPC dos 12 meses de 2008 (valor de 100).
A inflação anual em Portugal foi, assim, de -0,8% em 2009 (em 2008 havia sido de 2,6%).
Este valor significa que em 2009 os preços caíram 0,8%, em média, relativamente a 2008. Ou, dizendo-o de outro modo, que aquilo que se comprava, em média, com 100 euros em 2008, custava, em média, 99,2 euros em 2009. Isto não significa que todos os preços tenham caído naquela dimensão. Relembre-se que o IPC é um indicador da variação dos preços mas em termos médios, podendo os preços dos vários bens e serviços evoluir de formas diversas. E foi o que aconteceu. Das 12 classes de bens e serviços que constituem o cabaz, os preços (em média) reduziram-se apenas em metade delas, registando-se acréscimos nas demais. As classes 1 (Produtos alimentares e bebidas não alcoólicas) e 7 (Transportes) foram aquelas em que os preços mais caíram, em média (-3,4% e -3,6%, respectivamente). Por seu lado, as classes 2 (Bebidas alcoólicas e tabaco) e 10 (Educação) foram as que registaram maiores aumentos médios anuais (3,3% e 3,5%, respectivamente).
Como indicador da inflação anual de 2009, esse valor será referenciado em situações diversas: na negociação/definição dos ajustamentos salariais, na formulação de medidas no quadro da segurança social, na avaliação da própria competitividade do país (pela comparação do crescimento dos preços a nível interno e externo), na formulação da política de preços, na actualização de valores (enquanto indicador de actualização em contratos, disposições administrativas e judiciais, …), etc.
Esta inflação (negativa) em 2009 traduz uma situação perfeitamente anormal na evolução dos preços em Portugal nos últimos anos. A crise com que as economias se têm confrontado, com a correspondente contracção da procura a nível global e a redução verificada nos preços do petróleo e das matérias primas não energéticas, ajudam a explicar aquela evolução.
Para 2010 prevê-se que a inflação volte a valores positivos (o Banco de Portugal estima 0,7%), num contexto de recuperação económica, a nível nacional e mundial, que se espera (e deseja).

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Taxas de juro e ilusão monetária

Por força das incertezas e receios induzidos pela crise que atravessamos, muitas pessoas procuram baixar o risco das aplicações das suas poupanças, refugiando-se em activos mais seguros, nomeadamente depósitos a prazo. Muitas consideram, porém, que as taxas de juro daquelas aplicações são manifestamente baixas e consideravelmente inferiores às praticadas antes da crise. Em boa verdade, este entendimento traduz, em alguns casos, o chamado fenómeno da ilusão monetária. É que aquilo que se deve considerar como baixas são as taxas de juro nominais. Quanto às taxas de juro reais (aquelas que, no fundo, deveriam determinar as opções dos indivíduos), isso já não será tanto assim. Importa, pois, clarificar estes aspectos.

A ilusão monetária acontece quando, ao pensarmos em termos nominais, não incorporamos devidamente a dimensão da variação dos preços (inflação) nos nossos raciocínios, o que pode levar-nos a conclusões (e eventuais decisões) menos correctas.
Vejamos um exemplo concreto, com aplicação às referidas taxas de juro (não considerando aqui, por facilidade de análise, os eventuais encargos fiscais sobre os juros).
Admita-se que no início de 2007 (antes da crise) determinado indivíduo efectuou um depósito a prazo de um ano à taxa de juro (nominal) de 4,5%, no montante de 100 euros. No vencimento (final de 2007) o indivíduo recebeu 104,5 euros (100 de reembolso do capital e 4,5 de juros). Em Portugal, a taxa de inflação média foi, em 2007, de 2,5%, significando que aquilo que se comprava, em média, com 100 euros no início do ano, custava no final de 2007, em média, 102,5 euros. Resulta daqui que o referido depositante para recuperar, no final de 2007, o poder de compra associado aos 100 euros inicialmente depositados, teria que receber 102,5 euros. Como recebeu 104,5 euros, então, em termos reais (juro real), o seu ganho corresponde ao poder de compra associado a 2 euros (diferença entre 104,5 e 102,5).
Admita-se agora que, no início de 2009, o mesmo indivíduo efectuou um novo depósito (a um ano) de 100 euros, a uma taxa (nominal) de 1,5% (manifestamente inferior, portanto, ao valor de 2007). No final de 2009, o indivíduo receberá 101,5 euros. Não se conhece ainda a taxa de inflação para 2009, para Portugal. No entanto, tendo em conta a evolução dos preços nos últimos meses (com variações negativas), estima-se que a mesma seja negativa. As previsões de Outono da União Europeia (de Outubro) apontam para uma taxa de inflação negativa em 1%, enquanto o Banco de Portugal (Boletim Económico de Verão, Julho 2009) prevê um valor negativo em 0,5%. Se assumirmos esta última estimativa, ela significa, genericamente, que aquilo que custava, em média, 100 euros no início de 2009, custará no final do ano, em média, 99,5 euros. Como o depositante receberá 101,5 euros, então, em termos reais, o juro corresponderá ao poder de compra associado a 2 euros (diferença entre 101,5 e 99,5). Ou seja, se em termos nominais as taxas são claramente distintas nos dois casos (4,5% e 1,5%), já em termos reais os ganhos (as taxas) são equivalentes. Se porventura os preços caírem mais que o previsto pelo Banco de Portugal, o depósito correspondente à segunda situação poderá até gerar um juro real superior ao do primeiro caso.
Importa pois considerar devidamente estes aspectos nas nossas opções.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A taxa de desemprego: algumas questões

Actualmente fala-se muito de desemprego, por força dos elevados valores que a taxa de desemprego tem apresentado (9,1% no 2º trimestre de 2009). Por outro lado, alguns dos conceitos e metodologias em que assenta o cálculo da taxa são questionáveis, havendo quem defenda que a mesma não traduz fielmente a verdadeira dimensão do desemprego, subavaliando-o. Importa, pois, clarificar estes aspectos.

A taxa de desemprego mede a percentagem que os indivíduos considerados estatisticamente desempregados representam no conjunto da população activa. Esta, por sua vez, corresponde ao conjunto dos indivíduos (com idade mínima de 15 anos) considerados empregados ou desempregados. No caso concreto de Portugal, e tomando como referência os dados relativos ao 2º trimestre de 2009, a população activa correspondia a 5583,9 milhares de indivíduos, dos quais 5076,2 milhares eram considerados empregados e 507,7 milhares eram considerados desempregados. Daí a taxa de desemprego de 9,1%, resultante do cálculo: (507,7/5583,9) x 100.
A medição do emprego e desemprego assenta essencialmente nos dados recolhidos através do Inquérito ao Emprego, da responsabilidade do Instituto Nacional de Estatística. Trata-se de um inquérito realizado trimestralmente, por amostragem, em que os dados recolhidos se referem à situação no decorrer de uma determinada semana (denominada semana de referência).
Os valores da taxa de desemprego dependem naturalmente das metodologias e conceitos utilizados no cálculo. Se os mesmos forem questionáveis, também os resultados o serão. E, de facto, alguns aspectos parecem sê-lo, como é o caso dos conceitos estatísticos de “empregado” e “desempregado” utilizados.
Estatisticamente contabilizam-se como empregados indivíduos que tenham efectuado trabalho de apenas algumas horas (no limite, muito poucas) no período de referência. O conceito parece assim excessivamente largo, pois consideram-se como empregados indivíduos em situação de tal modo precária que é questionável se os mesmos não estarão mais próximos do desemprego do que propriamente do emprego.
Por outro lado, para se ser considerado (estatisticamente) desempregado não basta não ter trabalho e querer trabalhar. É necessário, para além disso, que o indivíduo tenha efectuado diligências para encontrar emprego ao longo de um período especificado (período de referência ou nas três semanas anteriores). Se assim não for, o indivíduo é considerado como “inactivo” (não fazendo parte sequer da população activa) e não como desempregado (embora esteja, efectivamente, em desemprego). Segundo os dados do INE, no 2º trimestre de 2009, o número de indivíduos nestas circunstâncias era de algumas dezenas de milhares. O conceito de desempregado parece ser, pois, excessivamente apertado.
Em função dos reparos apresentados, parece que a taxa de desemprego não traduz, em toda a sua extensão, o fenómeno do desemprego, uma vez que, no caso de alguns conceitos serem mais ajustados (como os de empregado e desempregado), a mesma poderia apresentar valores mais elevados.
Naturalmente que as considerações formuladas não se aplicam apenas às taxas de desemprego mais recentes. Pelo contrário, ajustam-se às metodologias e conceitos utilizados desde há vários anos em Portugal (como, aliás, em outros países).

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Perigos da deflação

Em Maio passado, neste mesmo espaço, falámos da queda dos preços, a propósito da redução registada pelo Índice de Preços no Consumidor (IPC), em termos homólogos (comparação do IPC de determinado mês com o IPC do mesmo mês do ano anterior), em Março e Abril de 2009. Conhecidos os valores para Maio e Junho (do Instituto Nacional de Estatística), a tendência de queda mantém-se e até de forma acentuada (-1,2% em Maio e -1,6% em Junho). Apesar disso, continuamos a pensar que não estamos ainda num quadro de deflação, por não se tratar de uma queda abrangente e generalizada dos preços (aquela evolução é explicada essencialmente pela redução dos preços de alguns bens da classe dos Transportes, particularmente dos combustíveis, e da classe dos Produtos alimentares e bebidas não alcoólicas) e por o espaço temporal ser ainda curto. No entanto e embora acreditando (e desejando) que não se chegue a uma situação de efectiva deflação, trata-se de uma evolução a ter em conta, pelo que importa ter consciência de algumas dificuldades e perigos que poderiam colocar-se nessas circunstâncias.
São várias e diversas as dificuldades e perigos decorrentes da deflação. Neste curto espaço referiremos apenas algumas.
Uma primeira dificuldade decorre da novidade da situação, ou seja, do facto de os agentes económicos não estarem habituados a conviver com deflação (os últimos anos foram de inflação moderada).
Por outro lado, e se a redução dos preços, em termos moderados e por um período curto, pode estimular a procura, num cenário de queda mais abrangente e duradoura dos preços (deflação) os indivíduos tenderão a reduzir o consumo (mais fortemente em bens não essenciais), na expectativa de conseguirem preços mais baixos no futuro. Analogamente, também os investidores, nomeadamente as empresas, adiarão algumas decisões de investimento (equipamentos, instalações, etc.). Destes adiamentos de consumo e investimento decorre, naturalmente, a redução da procura, o que prejudicará a produção e o emprego.
Uma outra dificuldade advém de, num cenário de deflação, a capacidade de intervenção das autoridades ao nível da política monetária ser fortemente condicionada. O Banco Central Europeu, BCE, define a estabilidade dos preços como um aumento homólogo dos preços inferior a 2%, mas próximo de 2%. Esta referência explícita a um valor próximo de 2% é, assumidamente, uma margem de segurança contra a deflação. É que num cenário de deflação, associado porventura a uma recessão económica em que se justifiquem medidas expansionistas da procura (nomeadamente do consumo e do investimento), uma das intervenções de política monetária mais poderosas consiste na redução do preço do dinheiro (taxa de juro). Só que essa redução tem um limite, que é zero, pois não faria sentido a existência de taxas de juro nominais negativas (pelo simples facto de, nesse caso, os agentes preferirem conservar moeda, em vez de concederem empréstimos ou efectuarem depósitos).
Por estas e outras razões, importa procurar evitar que se caminhe para uma situação de efectiva deflação.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A queda dos preços

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal registou em Março de 2009 uma variação de -0,4%, em termos homólogos, do Índice de Preços no Consumidor (IPC). Em Abril a redução dos preços foi ainda mais acentuada (-0,5%). Estes valores são historicamente baixos (resultados similares remontam aos anos 60). Começa a falar-se em deflação e nos seus perigos potenciais. Convém, por isso, procurar clarificar aqueles números.

Como se mede a variação dos preços (inflação)?

A inflação avalia-se através do IPC, que é um indicador que mede a evolução, em termos relativos, do custo de um conjunto de bens e serviços (cabaz), considerado representativo da estrutura de consumo das famílias. Em Portugal o cabaz engloba mais de 1100 bens e serviços, repartidos por 12 classes.

E o que é a taxa de variação homóloga?

A taxa de variação homóloga do IPC, medida para um determinado mês, compara o IPC desse mês com o IPC registado no mesmo mês do ano anterior. Assim, o valor de -0,4% verificado em Março de 2009, obtém-se pela comparação do IPC desse mês (99,5) com o valor de 99,9 registado pelo IPC em Março de 2008 [(99,5-99,9)/99,9 x 100 = -0,4%].

Estaremos, então, em deflação?

Por oposição a inflação, a deflação corresponde a uma redução geral, ou abrangente, dos preços dos bens e serviços ao longo de um período de tempo prolongado. Ora não foi exactamente isso que se passou.
O IPC é um indicador da variação dos preços mas em termos médios, podendo os preços dos vários bens e serviços evoluir de formas diversas. E foi o que aconteceu. Tomando Abril como referência, entre Abril de 2008 e Abril de 2009 verificou-se uma queda (em média) considerável nos preços da classe 7 (Transportes), reflectindo sobretudo a significativa redução ocorrida nos preços dos combustíveis. Os preços de outras classes também caíram (em média), como os da classe 1 (Produtos alimentares e bebidas não alcoólicas) e da classe 9 (Lazer, recreação e cultura), mas em muito menor dimensão. Em contrapartida, os preços dos bens e serviços de outras classes aumentaram, em média, como, por exemplo, os das classes 4 (Habitação, água, electricidade, gás e outros combustíveis ) e 11 (Restaurantes e hotéis).
Como a variação homóloga em Abril de 2009 foi de -0,5%, isto significa que a redução verificada, em média, nos preços de algumas classes, superou o acréscimo registado, em média, noutras classes.
Não se trata ainda, pois, e para já, de uma queda generalizada dos preços dos bens e serviços. Não deixa de ser, no entanto, uma situação anormal (a qual resulta certamente, em larga medida, da actual conjuntura económica, com uma manifesta crise de procura) que merece toda a atenção. É que um eventual fenómeno de deflação comporta perigos que é fundamental evitar.

terça-feira, 10 de março de 2009

Esperanças “Keynesianas”

Volta a falar-se muito, por força da situação das economias, de John Maynard Keynes. As suas posições e ensinamentos readquirem actualidade e importância acrescidas.
Importa pois, neste espaço de “clareza no pensamento”, falar um pouco sobre esta personagem e algumas das suas ideias.
Keynes (1883-1946), economista inglês, foi um dos nomes maiores da ciência económica e aquele que marcou, de modo mais evidente, a política económica dos governos (em economias de mercado) a partir dos anos 30 do século XX.
Com um percurso de sucesso em áreas diversas, o seu trabalho em Economia culminou com a publicação em 1936, época da Grande Depressão, da obra Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, que aparece fundamentalmente como reacção e tentativa de compreender as razões e os mecanismos que conduziram à crise e ao enorme desemprego, involuntário e persistente, que se verificava.
Ao fazê-lo, rompe com as explicações clássicas e neoclássicas, prevalecentes até então, que defendiam que o mecanismo de mercado (no essencial, a livre interacção da procura e da oferta) continha os elementos que permitiriam ultrapassar, por si, as crises que fossem aparecendo, não sendo por isso necessária, nem desejável, a intervenção dos Governos em termos de política económica activa (explicações que a Grande Depressão se encarregou de contrariar, de forma inquestionável).
Keynes postula então que o mecanismo de mercado não era, afinal, “perfeito”, não resolvendo por si todos os problemas. Sendo assim, e para suprir essas falhas do mecanismo, “alguém” teria que ajudar a economia, competindo essa tarefa essencialmente ao Estado, sem colocar em causa, no entanto, o papel fundamental do mecanismo de mercado e do liberalismo económico.
Para Keynes, o desemprego (e quebra na produção) resultava sobretudo de uma procura insuficiente. Impunha-se por isso a adopção de políticas expansionistas adequadas que, incrementando as várias componentes da procura, induzissem crescimento da produção e emprego. Entre as intervenções recomendadas contavam-se a descida da taxa de juro (para fomentar o investimento), a redistribuição do rendimento a favor das classes de menores recursos (que aumentaria o consumo privado, dado estas classes consumirem uma maior parcela relativa do seu rendimento) e o acréscimo dos investimentos públicos.
As ideias de Keynes foram rapidamente colocadas em marcha, nomeadamente pelo Presidente americano Franklin Roosevelt, com a política do New Deal de combate à Grande Depressão. A mesma incorporava diversas medidas de carácter social, grandes projectos de obras públicas, incentivos ao investimento privado, etc., procurando assim expandir-se a procura nas suas diversas componentes.
Passados quase 80 anos, esta lógica de intervenção ganha novamente grande dimensão em várias economias, nomeadamente (e mais uma vez) nos Estados Unidos com o plano de recuperação económica (The American Recovery and Reinvestment Act 2009) da Administração Obama.
O plano (envolvendo um montante estimado de 787 mil milhões de dólares) engloba três vertentes principais: investimento público (em infra-estruturas, pesquisa e desenvolvimento no domínio das energias e na área da saúde, …), redução de impostos (aumentando o rendimento das famílias e favorecendo o crescimento das suas despesas) e intervenções de auxílio (nomeadamente nos domínios do desemprego e dos cuidados de saúde). A esta política orçamental acresce a política monetária (também ela expansionista) de redução da taxa de juro (seguida pela Reserva Federal americana), com vista à expansão do investimento e consumo.
Noutros países, nomeadamente europeus, a receita seguida é semelhante. Todas elas de inspiração marcadamente keynesiana.
As ideias de Keynes ajudaram seguramente a resolver algumas crises e a prevenir outras. Nos dias que correm, muitas das esperanças para a resolução da situação actual voltam a depositar-se nele. Ou melhor, nas suas ideias.